A Casa do Intérprete

Para os viajantes peregrinos, um lugar de descanso e reflexão. Entre a Porta Estreita e a Cidade Celestial, uma casa de cômodos fantásticos, de contos, histórias e reflexões teológicas. A Casa do Intérprete, figura de um antigo pastor puritano, que em seu conhecimento e acolhimento instrui os viajantes peregrinos em sua jornada de fé.

Capítulo 01: A fuga de Túlio

Numa singela manhã fria de domingo, a cidade de Campina Boa amanhecia um pouco sonolenta. Seja pelo intenso frio de inverno ou mesmo pelo sol, que parecia acanhado e preguiçoso, expondo apenas alguns de seus raios para avisar que o dia já raiou. Nos pastos, a camada densa de gelo ainda estava bem formada sobre a grama, soltando aquele vapor gelado que faz qualquer um tremer de frio apenas ao contemplar a paisagem. A população também se afofava quentinha em suas camas macias, aquecendo-se com muitos cobertores e garrafas de plástico com água quente. O lugar mais quentinho certamente era a cozinha, onde um fogão de lenha aceso preparava o café com leite quente dos meninos e aquecia as mãos geladas das mães que labutavam desde a primeira hora do dia. Mesmo não sendo dia de feira, elas se levantavam cedo para colocar todo mundo em pé para irem à igreja, seja na Escola Dominical da pequena igreja Batista do Centro, ou para a missa da imponente catedral que se erguia no topo da colina de Campina Boa. Mas não era sem dificuldade que essas mães despertavam seus meninos. Com muita má vontade, eles se levantavam com seus cabelos desgrenhados e caras amassadas e se sentavam no sofá da sala para aguardarem a refeição que lhes era dada – o delicioso café com leite e o pão crocante com manteiga da padaria da esquina, que o pai com a mesma cara amassada e os cabelos desgrenhados trouxera de boa vontade. Tendo tomado o café, penteado os cabelos e se enrolado em blusas grossas e cachecóis de lã, as famílias seguiam para suas igrejas. Uma cena que se repetia domingo após domingo nesta pequena cidade.

Esta cena podia parecer comum para maioria dos lares de Campina Boa, mas não para a família Ferreira. Não por causa da mãe, Rosa, que de modo semelhante a todas as outras mães, dedicava-se a levantar cedo para preparar o café da família, nem por causa do pai, Carlos, que domingo a domingo buscava o pãozinho crocante na padaria da esquina, ou pela pequena Alice, que se arrastava com a cara amassada e os cabelos desgrenhados para o sofá da sala… Era o menino Túlio, um garotinho franzino de onze anos, que de uns tempos para cá resolveu que não obedeceria mais a ninguém, nem mesmo sua mãe e seu pai, tampouco dedicaria seu tempo aquela besteira de igreja que os seus pais tanto falavam. Todo domingo em especial, Rosa tinha muita dificuldade para tirar Túlio da cama, por vezes era em tons de ameaça de castigo que ele se levantava para ir à igreja, e na Escola Dominical, ele aprontava o terror com todas as outras crianças, desafiava os professores com suas malcriações e fazia os seus pais passarem vergonha ao fazer caretas e mostrar a língua quando todas as crianças iam a frente para cantar. Ao final de cada EBD, seus pais o punham de castigo, tirando dele o smartphone e o videogame de segunda mão que o pai comprou de um amigo mais abastado. Contudo, isso fazia a ira de Túlio aumentar mais e mais. Em sua obstinação ele decidiu que faria o que quisesse, nem que para isso tivesse que sair de casa. E foi naquela manhã fria de domingo, quando todos estavam mais sonolentos que de costume, que ele tinha decidido partir.

Para não despertar os ânimos de seus pais, na semana anterior ao domingo da partida, Túlio se comportou bem, levando sua mãe a fazer orações de agradecimento a Deus e seu pai ser mais simpático, deixando-o passar uma hora por dia com seu smartphone. Porém, secretamente ele debochava de seus pais dizendo:

— Vocês não perdem por esperar. Logo ninguém mais vai mandar em mim!

Túlio seguiu sua semana quieto, fazendo seus deveres na escola, não implicou com sua irmãzinha Alice, não retrucou com seus pais quando lhe ordenavam ou lhe falavam alguma coisa, e mesmo no culto doméstico, ele se assentava quieto para ler a Bíblia e ouvir as pregações de seu pai. Quando seus pais pensaram que essa fase de rebeldia finalmente havia passado, Túlio coloca seu plano em prática: no sábado, depois do jantar, quando todos já estavam deitados e dormindo, ele se levantou sorrateiramente, e foi até o guarda-chaves, onde seu pai deixava a chave da porta da sala, pegou-a e a colocou debaixo de seu travesseiro. Quando o relógio bateu quatro horas da madrugada, ele se levantou em silêncio para não acordar sua irmã, pegou sua mochila que levava para escola, onde tinha secretamente guardado algumas peças de roupas, um pouco de dinheiro que havia furtado da mãe (que guardava na primeira gaveta de sua cômoda) e seu smartphone com carregador. Vestiu sua calça jeans, sua jaqueta de carneirinho e sua bota quentinha, esgueirou-se pé por pé até a porta de entrada da sala, colocou a chave na fechadura e fez dois giros leves, destravando a porta. Aquele pequeno clique era o som de sua liberdade tão almejada!

“Ninguém mais vai dizer o que eu preciso fazer! Daqui em diante viverei a minha própria vida e nunca mais voltarei para essa casa e para aquela igreja esquisita”. Pensou com um ar de glória e resignação. Porém, ao cruzar a porta, um sentimento, na verdade uma pequena voz em sua consciência sussurrou: “Se pela porta atravessar, é certo que pode não voltar. É isso mesmo que você deseja?”. Por um instante ele pensou no rosto de sua mãe e seu pai, no lar aconchegante que ele tinha, na família e afeto que possuía e pensou em recuar. Mas a liberdade estava ali, bem na sua frente, sorrindo para ele e convidando-o para uma nova vida, sem escola, sem igreja, EBDs, sem obrigações… Assim, seguiu para a madrugada fria, rumo ao desconhecido.

Posted in

Deixe um comentário