A Casa do Intérprete

Para os viajantes peregrinos, um lugar de descanso e reflexão. Entre a Porta Estreita e a Cidade Celestial, uma casa de cômodos fantásticos, de contos, histórias e reflexões teológicas. A Casa do Intérprete, figura de um antigo pastor puritano, que em seu conhecimento e acolhimento instrui os viajantes peregrinos em sua jornada de fé.

  • O Casarão

    Túlio estava prestes a cruzar o portão rumo à rua à sua frente, quando ouviu murmúrios vindo de dentro de sua casa. Num piscar de olhos ele viu a luz da sala se acender e os olhos estupefatos de Alice grudados na janela. Túlio não tinha percebido, mas sua pequena irmã estava de olho nele desde o princípio da noite, quando ele havia se levantado da cama, descido até a sala e retornado com a chave da porta em suas mãos e o viu colocá-la debaixo do travesseiro. Ela fingiu dormir o tempo todo e, no início da madrugada, notou o irmão se vestir, tomar a mochila que havia preparado e descer as escadas sorrateiramente. Ela o seguiu do mesmo modo, e curiosa para ver o que Túlio faria, permaneceu em silêncio e escondida, mas ao perceber que a intenção de seu irmão era realmente fugir, ela teve medo, desceu, acendeu a luz e foi até a janela espiar, então viu o menino correndo para a rua. 

    Imediatamente, Alice foi até o quarto dos pais e num impulso desesperado, daqueles típicos de criança, saltou sobre a cama, caindo entre seus pais, gritando aflita: 

    – Papai, Mamãe! Acordem! O Túlio fugiu de casa! 

    Carlos e Rosa estavam embalados no melhor momento de seu sono. O volume de atividades e trabalho lhes garantia noites muito bem dormidas e um sono pesado. Alice insistiu várias vezes para que eles acordassem e foi de modo muito vagaroso que Carlos abriu os olhos e disse:

    – Alice, já lhe falei que essa história de fantasmas não é real. Volte para sua cama! O Túlio está assustando você?

    – Não papai! Você não está entendendo! O Túlio fugiu de casa! – disse a menina aos prantos. 

    – Ele o quê?  – Carlos pulou da cama e correu até o quarto das crianças, vendo a cama de Túlio vazia. Desesperado, ele voltou e viu Rosa com cara de espanto ao confirmar o que Alice lhe contara. Juntos, desceram as escadas com passos tão pesados que a escada de madeira poderia soltar um suspiro de dor se possuísse sentimentos. Depois de vasculhar toda a casa e não tendo encontrado o menino, saíram desesperados à sua procura pela rua, gritando o seu nome desesperadamente. 

    Enquanto isso, Túlio corria velozmente, tomado por um ímpeto de ira que queimava dentro de si e o impulsionava com mais força. “Aquela pirralha vai estragar tudo! Eu me recuso a voltar para aquela casa! Já sei! Preciso me esconder em algum lugar!” Túlio parou por um instante e pensou no melhor lugar para ir se esconder. A essa altura, calculou que seus pais já estavam atrás dele pela mesma extensa rua onde corria, por isso era necessário mudar de rota.  De repente, uma ideia assustadora passou pela sua cabeça: esconder-se no antigo casarão do centro. Só de pensar nisso, um frio lhe correu pela espinha e os pelinhos finos de seu braço de menino ficaram ouriçados. 

    Não se tratava de qualquer casarão. Pertenceu a uma das famílias fundadoras de Boa Campina, vinda de uma cidade italiana no tempo da Primeira Grande Guerra e se estabeleceu ali, fundando o seu pequeno império do café na cidade. Mas o que se conta nas histórias é que muitas coisas ruins aconteceram, de modo que a pobreza, a tragédia e a morte fizeram todo esse império desmoronar e a família acabar, ficando aquele casarão velho sob os cuidados da prefeitura. Ninguém morava ali, pois diziam ser uma casa amaldiçoada, repleta de fantasmas e criaturas malignas. Por um breve período, uma família habitou naquela casa (o que atraía os olhares curiosos das pessoas), mas de um modo misterioso, de um dia para o outro, mudaram-se para outra cidade. Há relatos de que o fantasma de um senhor assombra a casa. Dizem ser o fantasma do Coronel-de-um-olho-só, que se esconde no extenso labirinto do jardim do casarão e espanta os meninos e moradores inconvenientes para não invadirem sua propriedade.

    Túlio considerava essa possibilidade quando o barulho de passos fortes vindo em sua direção lhe despertaram a atenção. Por ter uma visão muito boa, Túlio reconheceu seu pai desesperado gritando o seu nome a alguns metros de distância. 

    – Túlio! Túlio! Espere por mim! Gritou Carlos ao ver a sombra de um menino franzino um pouco longe dele. 

    Túlio não pensou duas vezes, disparou em direção ao centro da cidade, mas não queria de maneira alguma se esconder no casarão. Quem sabe se esconderia numa construção ou no jardim de uma casa. Mas à medida que corria, nenhuma dessas alternativas se mostraram possíveis. O casarão, entretanto, estava cada vez mais próximo.

    – Túlio! Túlio! Não fuja! – A voz de Carlos ecoou aflita pela rua e fez o garoto virar uma esquina e correr mais ainda, embora fatigado e quase sem fôlego. O menino estava ficando sem alternativa e teria de se esconder no antigo casarão. Mas como despistaria seu pai? E como seu pai conseguia se aproximar com tanta facilidade, mesmo correndo tanto? Só havia uma explicação: o smartphone. Aquele pequeno aparelho entregava a Carlos a sua localização em tempo real. Novamente, aquele ímpeto de ira queimou no peito do menino que, a muito contragosto e com raiva, jogou seu aparelho na lixeira fixada perto do poste de luz. Certamente isso confundiria seu pai e lhe daria tempo para se esconder no casarão. 

    Rapidamente, Túlio se esgueirou por um buraco no muro de uma casa e dali andou sorrateiramente até o outro lado, dando acesso à rua do casarão (essa casa era bem grande e dava acesso a duas ruas). Como era um menino magricela, Túlio passava com facilidade por buracos de muros e frestas de grades. Percebendo que não havia sinal de seu pai, seguiu até o início da rua e entrou pelos portões do jardim, escondendo-se no assustador labirinto do casarão. 

  • Capítulo 01: A fuga de Túlio

    Numa singela manhã fria de domingo, a cidade de Campina Boa amanhecia um pouco sonolenta. Seja pelo intenso frio de inverno ou mesmo pelo sol, que parecia acanhado e preguiçoso, expondo apenas alguns de seus raios para avisar que o dia já raiou. Nos pastos, a camada densa de gelo ainda estava bem formada sobre a grama, soltando aquele vapor gelado que faz qualquer um tremer de frio apenas ao contemplar a paisagem. A população também se afofava quentinha em suas camas macias, aquecendo-se com muitos cobertores e garrafas de plástico com água quente. O lugar mais quentinho certamente era a cozinha, onde um fogão de lenha aceso preparava o café com leite quente dos meninos e aquecia as mãos geladas das mães que labutavam desde a primeira hora do dia. Mesmo não sendo dia de feira, elas se levantavam cedo para colocar todo mundo em pé para irem à igreja, seja na Escola Dominical da pequena igreja Batista do Centro, ou para a missa da imponente catedral que se erguia no topo da colina de Campina Boa. Mas não era sem dificuldade que essas mães despertavam seus meninos. Com muita má vontade, eles se levantavam com seus cabelos desgrenhados e caras amassadas e se sentavam no sofá da sala para aguardarem a refeição que lhes era dada – o delicioso café com leite e o pão crocante com manteiga da padaria da esquina, que o pai com a mesma cara amassada e os cabelos desgrenhados trouxera de boa vontade. Tendo tomado o café, penteado os cabelos e se enrolado em blusas grossas e cachecóis de lã, as famílias seguiam para suas igrejas. Uma cena que se repetia domingo após domingo nesta pequena cidade.

    Esta cena podia parecer comum para maioria dos lares de Campina Boa, mas não para a família Ferreira. Não por causa da mãe, Rosa, que de modo semelhante a todas as outras mães, dedicava-se a levantar cedo para preparar o café da família, nem por causa do pai, Carlos, que domingo a domingo buscava o pãozinho crocante na padaria da esquina, ou pela pequena Alice, que se arrastava com a cara amassada e os cabelos desgrenhados para o sofá da sala… Era o menino Túlio, um garotinho franzino de onze anos, que de uns tempos para cá resolveu que não obedeceria mais a ninguém, nem mesmo sua mãe e seu pai, tampouco dedicaria seu tempo aquela besteira de igreja que os seus pais tanto falavam. Todo domingo em especial, Rosa tinha muita dificuldade para tirar Túlio da cama, por vezes era em tons de ameaça de castigo que ele se levantava para ir à igreja, e na Escola Dominical, ele aprontava o terror com todas as outras crianças, desafiava os professores com suas malcriações e fazia os seus pais passarem vergonha ao fazer caretas e mostrar a língua quando todas as crianças iam a frente para cantar. Ao final de cada EBD, seus pais o punham de castigo, tirando dele o smartphone e o videogame de segunda mão que o pai comprou de um amigo mais abastado. Contudo, isso fazia a ira de Túlio aumentar mais e mais. Em sua obstinação ele decidiu que faria o que quisesse, nem que para isso tivesse que sair de casa. E foi naquela manhã fria de domingo, quando todos estavam mais sonolentos que de costume, que ele tinha decidido partir.

    Para não despertar os ânimos de seus pais, na semana anterior ao domingo da partida, Túlio se comportou bem, levando sua mãe a fazer orações de agradecimento a Deus e seu pai ser mais simpático, deixando-o passar uma hora por dia com seu smartphone. Porém, secretamente ele debochava de seus pais dizendo:

    — Vocês não perdem por esperar. Logo ninguém mais vai mandar em mim!

    Túlio seguiu sua semana quieto, fazendo seus deveres na escola, não implicou com sua irmãzinha Alice, não retrucou com seus pais quando lhe ordenavam ou lhe falavam alguma coisa, e mesmo no culto doméstico, ele se assentava quieto para ler a Bíblia e ouvir as pregações de seu pai. Quando seus pais pensaram que essa fase de rebeldia finalmente havia passado, Túlio coloca seu plano em prática: no sábado, depois do jantar, quando todos já estavam deitados e dormindo, ele se levantou sorrateiramente, e foi até o guarda-chaves, onde seu pai deixava a chave da porta da sala, pegou-a e a colocou debaixo de seu travesseiro. Quando o relógio bateu quatro horas da madrugada, ele se levantou em silêncio para não acordar sua irmã, pegou sua mochila que levava para escola, onde tinha secretamente guardado algumas peças de roupas, um pouco de dinheiro que havia furtado da mãe (que guardava na primeira gaveta de sua cômoda) e seu smartphone com carregador. Vestiu sua calça jeans, sua jaqueta de carneirinho e sua bota quentinha, esgueirou-se pé por pé até a porta de entrada da sala, colocou a chave na fechadura e fez dois giros leves, destravando a porta. Aquele pequeno clique era o som de sua liberdade tão almejada!

    “Ninguém mais vai dizer o que eu preciso fazer! Daqui em diante viverei a minha própria vida e nunca mais voltarei para essa casa e para aquela igreja esquisita”. Pensou com um ar de glória e resignação. Porém, ao cruzar a porta, um sentimento, na verdade uma pequena voz em sua consciência sussurrou: “Se pela porta atravessar, é certo que pode não voltar. É isso mesmo que você deseja?”. Por um instante ele pensou no rosto de sua mãe e seu pai, no lar aconchegante que ele tinha, na família e afeto que possuía e pensou em recuar. Mas a liberdade estava ali, bem na sua frente, sorrindo para ele e convidando-o para uma nova vida, sem escola, sem igreja, EBDs, sem obrigações… Assim, seguiu para a madrugada fria, rumo ao desconhecido.

  • Por Denis Benjamin da Silveira

    Depois de ter passado com muitas dificuldades pela porta estreita, Cristão – o amado peregrino, criado pelo ilustre pastor não-conformista John Bunyan, no século XVII, para tipificar não apenas a sua própria vida, mas a de todos os cristãos que seguem a sua jornada rumo a Cidade Celestial – chega a um local onde recebe muitas instruções por parte de um personagem chamado Intérprete, figura que representa o piedoso e austero pastor puritano. O intérprete leva Cristão para visitar os mais distintos e fantásticos cômodos de sua casa, que revelam personagens alegóricos com lições preciosas para a vida cristã. Em cada cômodo, Cristão conhece a realidade da vida cristã e os desafios que o aguardam em sua jornada de fé. Intérprete lhe dá a explicação de cada cena, mostrando o significado de cada personagem vinculando-o aos ensinamentos da Bíblia.

    De modo semelhante, esse blog visa apresentar ao leitor vários cômodos de uma casa, onde em cada um, se refletirá à luz das Sagradas Escrituras sobre textos, contos e histórias teológico-literárias. Nosso propósito é apresentar uma reflexão bíblica direta ou indireta, trazer contos e histórias fictícias e fantásticas e encorajar os muitos peregrinos que por aqui passam. Seja bem-vindo! E não se esqueça de deixar o seu comentário.